Não escolha cursar física antes de ler esse textp
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Escolher o que fazer da minha vida foi bem estressante para mim. Despindo esse texto de beleza e exagero, a realidade é que a escolha foi uma aposta. Durante meu ensino médio só escutava sobre três cursos: Medicina, engenharia (tipicamente civil) e direito. Qualquer profissão fora isso tinha um ar de fracasso. Porém, sempre que eu perguntava o porque nichar a escolha entre essas três a resposta era sempre dinheiro. Por isso eu tenho certa resistência em procurar atendimento com meus colegas que sei que escolheram medicina pensando nisso….
Eu olhava essas três opções e nunca me via como um médico, passo longe dessa vocação, direito? Com todo respeito do mundo, não. Se fosse para fazer um ranking provavelmente estaria entre as últimas opções. Me sobraram as engenharias. Mas qual? Mesmo dentre as três opções mais faladas eu não tinha a menor noção do que faz um engenheiro. Não tinha nada para me guiar.
Isso é só para por em perspectiva o fato que é meio que óbvio: as pessoas querem que você escolha uma boa profissão, mas ninguém te da o mínimo de instrução sobre qualquer opção e quando oferecem algum ajuda é uma opinião carregada por frustrações pessoais, nada objetiva. Pelo menos assim foi comigo.
Dentre a tríade suprema de profissões, me sobrou engenharia. O que é bem próximo ainda de não ter a menor ideia do que fazer, já que existem infinitas opções de engenharia. Por alguma razão que já não me recordo, mecatrônica me chamou atenção. Mas isso era algo que eu falava para os outros. No fundo eu sempre tive mais interesse em física e levou certo tempo até eu começar a externalizar isso. Quando fiz, as pessoas foram meio que a loucura. Ninguém entendia essa escolha, ninguém achava uma boa decisão, mas obviamente, ninguém sabia o que estava falando. Olhando em retrospecto, ninguém que falei havia visto sequer um físico formado na vida.
Moral da história até agora: até esse momento todas opiniões que recebi sobre o que fazer da vida foram inúteis. As pessoas eram bem intencionadas, quando falavam sobre os “perigos” de escolher física, no fundo, elas estavam preocupadas com o meu futuro. Só que era uma preocupação sem fundamento, fruto de uma ignorância a respeito de uma área de atuação e um viés, que conforme eu cresci vi que também era falso, que se eu fizesse qualquer uma das três profissões padrão eu seria bem sucedido, e por bem sucedido estão falando de dinheiro.
Eu demorei a entender isso, no início eu batia boca, brigava, insistia que fazia sentido, mas advinha só, eu também não tinha um argumento decente para justificar minha escolha. Eu tinha curiosidade, gostava da disciplina, e ficava impressionado com como as pessoas tem ideias e isso era motivo suficiente para mim. Mas na prática eu não sabia de nada, como é realmente o curso de física? Como é o futuro de um físico? O que um físico pode fazer? Como é para se tornar um pesquisador? Quanto é uma bolsa de mestrado? De doutorado? O que é um pós doutorado? Nada. Eu estava no completo vácuo de informação.
A situação mudou um pouco por sorte. Encontrei um panfleto na minha escola da USP de São Carlos anunciando um projeto de extensão, que se baseava em uma espécie de serviço de atendimento ao consumidor, onde você mandava sua dúvida e eles direcionavam ela para um especialista. Eu não pensei duas vezes e mandei minhas questões de física para eles. E para minha supresa funcionou, eles me direcionaram para o primeiro físico pesquisador que falei na minha vida. Esse profissional foi quem me instruiu de maneira apropriada me falando tudo sobre como era ser um físico, como funciona o curso de física e foi quem me motivou a tentar e apostar minhas fichas nessa carreira.
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