Da completa ausência ao excesso: Como nossa relação com a informação mudou ao longo do tempo.
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Há duas maneiras de manter uma pessoa na ignorância. A primeira é óbvia: privá-la de qualquer acesso a informação de qualidade. A segunda é expô-la a uma quantidade enorme de informação, sem educá-la o suficiente para que consiga filtrar o conteúdo de qualidade. Esse último cenário é curioso, pois pode nos dar a falsa sensação de entendimento, tudo parece estar sempre ao nosso alcance, mas, ao mesmo tempo, nunca esteve tão longe. Exemplos comuns do dia a dia, que você já deve ter experienciado, incluem abrir qualquer rede social e se deparar com dicas conflitantes sobre o consumo de algum alimento ou sobre como executar um exercício na academia. No fim, diante dessas situações, nós tendemos a confiar no mensageiro, sem julgar a mensagem.
De certa forma, eu permeei os dois extremos. Antes de começar a me expor na internet, eu era o que os jovens de hoje chamam de low profile. Durante meu ensino médio, entre 2012 e 2014, a informação no ramo da educação ao meu dispor era extremamente limitada. Tínhamos pouquíssimos professores no YouTube, e livros didáticos mais avançados dificilmente chegavam a cidades menores, como a que eu morava. Após passar em Física na USP, comecei a ter acesso a materiais excelentes, e entre 2014 e 2018 aprendi muita coisa nova por conta própria, já que uma das demandas do curso de Física é criar independência no aprendizado, desenvolvendo um olhar crítico para a informação que te apresentam. Nesse período, eu quase nunca consumia conteúdo online, muito menos de exatas; afinal, eu já trabalhava com isso o dia todo. Fiquei completamente ausente e ignorante a respeito da evolução da educação nos meios digitais. Porém, o cenário evoluiu muito nesse meio-tempo, com várias figuras emergindo, para o bem ou para o mal.
Nesse contexto, um dos maiores colaterais de começar a criar conteúdo foi o algoritmo interpretar que eu gostaria de consumir conteúdos do nicho para o qual eu produzo, algo entre estudo, focando em exatas, e estilo de vida. Desde que iniciei, sou constantemente bombardeado por gurus da educação com diversos discursos. Nesse cenário, é fácil perceber como o excesso, somado à ausência de filtro, exalta o mensageiro. Temos uma crescente onda de conteúdos cada vez mais agressivos na propaganda, com promessas cada vez maiores e uma entrega, na sua grande maioria, extremamente fraca. Porém, o consumidor — tipicamente alunos que ainda estão no processo de formação e pressionados pelos resultados do vestibular — acaba caindo nesses discursos pela dificuldade de julgar o conteúdo. Novamente, ficamos à mercê do mensageiro.
Não sei se é o meu algoritmo que está viciado, mas o marketing da educação parece voltado a diminuir o público-alvo e fazer promessas ridículas. Já vi slogans chamando as pessoas de burras, utilizando os famosos números sobre como o brasileiro não lê ou como nosso país deixa a desejar no quesito educação. As propagandas são tão fortes que, às vezes, até eu tenho a impressão de que, após o discurso, a pessoa vai realmente oferecer uma solução para o problema em nível nacional. No fim, obviamente, é só um gancho para vender um curso particular, que não vai afetar um índice em escala maior. O cenário piora quando o conteúdo oferecido é raso, prometendo muito, mas com o único propósito de garantir que alguém “aprenda” o suficiente para passar numa prova. É isso que conta no final: escolas não são classificadas pelo aprendizado dos alunos, mas sim pelo número de pessoas que colocam no outdoor no final do ano. E vai por mim: passar em prova e aprender são conquistas absurdamente diferentes. Elas podem compartilhar algo em comum, mas vocês se surpreenderiam com o quanto esses dois objetivos podem ser atingidos mantendo-se completamente independentes. Um exemplo são os cursinhos de redação que ensinam você a escrever uma redação nota 1000 no ENEM. Será que essa conquista significa algo mais profundo além de ser uma boa nota no ENEM? Deixo a cargo do leitor a reflexão.
Nosso país carece, sim, de mais investimento na educação, isso é óbvio. Porém, na minha opinião, atacar o povo, diminuindo nossos iguais que já sofrem tanto, escancarando índices, me parece, no mínimo, um ato de mau-caratismo. Quando vejo notícias como “o brasileiro não lê” ou “estamos ficando mais burros”, me parece que o problema real é reduzido a uma questão de escolha e isso é ridículo. Educação só é poder se você priva os outros de terem acesso a ela. Vi uma vez Gilberto Gil dizendo em um vídeo: “É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!” Acredito que o mesmo se aplica ao aprendizado. Dê ao povo acesso, e esses índices caem por terra. Também acho curioso que as pessoas que usam esses índices por aí aparentemente se consideram imunes a eles ou, pelo menos, melhores que os outros. Mas será? Há uma maneira especial de ser ignorante: educar-se o bastante para se achar imbatível, mas não o suficiente para ver o quanto ainda se tem a aprender.
Meu trabalho de pesquisador me colocou em contato com pessoas que, para o público geral, são tidas como gênios. Mas eu, do lado de cá, sei como é o processo de desenvolvimento humano por trás do desenvolvimento técnico. As pessoas só veem o resultado; eu sei como foi o caminho. O acesso a materiais de qualidade, em ambientes propícios para a evolução pessoal, é crucial para a formação. No meu caso, por exemplo, tudo mudou quando tive acesso à biblioteca da USP. Agora imagine se isso tivesse acontecido ainda no ensino médio? Ou antes? Curiosidade vem da exposição a diversos temas, tentativa e erro. Como você vai tomar gosto por algo que nem sabe que existe? Trabalhei por um ano em um laboratório internacional com pesquisadores renomados do mundo todo. Falo com experiência: a maior diferença na formação deles é o acesso. Não é à toa que grande parte dos pesquisadores são filhos de outros pesquisadores. O acesso antecipado, somado à boa instrução, abre o caminho. A pessoa precisa apenas percorrê-lo, o que já é desafiador. No nosso caso, temos que andar, abrir o caminho, comprar as ferramentas e ainda nos preocupar com a direção.
Mirando nos problemas gerados pela falta de acesso, professores e gurus online têm mirado na venda de sonhos. Títulos ridículos, prometendo uma didática divina ou colocando exercícios comuns como problemas milenares, viraram rotina. Eu me questiono profundamente se a única maneira de ter sucesso nesse meio é se sujeitando a isso. Pelo menos, segundo as métricas do algoritmo e os vídeos que chegam até mim, o destaque está nessas pessoas. Ainda estou para ver um título nesse nicho que seja focado em chamar atenção pelo fato de o tópico ser interessante. Será que a didática suprema é limitada a ponto de não conseguir promover uma curiosidade minimamente profunda sem usar como muleta uma dor?
O aprendizado não deveria ser reduzido a uma competição. Não deveríamos nos orgulhar de saber algo a mais que o outro. Na esmagadora maioria das vezes, isso é apenas um cenário em que privilégio é confundido com mérito. A ação de aprender é multiplicada no ato de ensinar, o que torna o compartilhamento de informação um pilar fundamental. Gosto de acreditar que ainda é possível vender educação promovendo o prazer de aprender, de forma justa e sem excessos focando na mensagem, e não no mensageiro, com o objetivo de passar a ideia de que aprender é algo positivo para todos, não algo que vai te tornar melhor do que os outros. E essa é talvez mais uma maneira de ser ignorante: se manter satisfeito com ilusões.
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